Como e Por Que Medir a Maturidade em Times Ágeis?

Se você chegou aqui, provavelmente já viveu ou vive em um contexto de agilidade, times ágeis e afins. Então, deve estar se perguntando qual a melhor forma de se usar os muito mencionados modelos de maturidade e avaliação para avaliar e alavancar o potencial dos tempos. No entanto, antes de aprofundarmos neste tema, vale uma breve introdução e a primeira consideração. 
  

Consideração 1: Maturidade de times não significa agilidade para toda sua organização

  

Um conceito muito difundido no mercado é o Business Agility, que expande uma abordagem de agilidade em todos os níveis das associações e não somente em grupos de trabalho qualificado. Na Accenture | SolutionsIQ, utiliza um modelo de referência para representar os recursos chaves de uma organização:

Não se trata de um framework, mas de uma forma estruturada de encontrar gargalos organizacionais e oportunidades de incremento de valor.

Ampliando o modelo, podemos encontrar essas 5 competências para analisar muitas outras subcompetências . “Mas, espera, e meus times ágeis? Achei que era um artigo sobre maturidade. ” Aqui, é importante mencionar essa relação: a competência Delivery Agility compreende a execução das entregas e a construção das soluções, sendo, de fato, o motor de uma organização. No entanto, quando falamos de maturidade de times estamos considerando apenas uma parte, muitas vezes míope, do que agilidade organizacional realmente representa.

Perceba que há muitos outros temas que uma avaliação de maturidade de tempos pode não refletir. Portanto, pondere que se trata de um indicador frágil para mensurar agilidade. Feito esta consideração, vamos ao que interessa.

Maturidade 

Primeiramente, sobre o termo “maturidade”, há críticas de que teria um sentido pejorativo, pois uma fruta depois de madura apodrece. No entanto, uma analogia poderia ser entendida como sendo uma pessoa madura, evoluída, com boa gestão das suas emoções e lógica. Nesse ponto, uma pessoa madura continua evoluindo e não há a ideia de um plateau, onde não se pode melhorar mais. De qualquer forma, é um termo que já se utiliza e bastante familiar nas associações.

Importante mencionar que maturidade não é um conceito recente. Pessoas mais experientes devem se lembrar do CMMI (Capability Maturity Model Integration), modelo criada na década de 80. Trata-se não apenas de um modelo maturidade, mas de padronização de processos. Foi amplamente utilizado e pode haver controvérsias sobre seu valor gerado. O ponto é que ele não é mais apropriado para contextos de agilidade onde estamos primando por adaptação e não padronização.

Dessa forma, podemos definir maturidade no contexto de agilidade como ferramenta de melhoria contínua, e não uma mera avaliação ou mesmo um check-list de ações que precisam ser concluídas para conseguir um título. O ponto da maturidade para times ágeis sempre é voltado para a reflexão e posterior evolução do time.  

 

Consideração 2:  Maturidade é uma ferramenta de reflexão e melhoria contínua 

 

Dado esta segunda consideração, podemos refutar um antipadrão que vemos no mercado: maturidade como objetivo final que um time deve atingir. O objetivo do time deve ser, na verdade, prover resultados e a maturidade é apenas uma forma de potencializá-los. Agora, um rápido conceito sobre “métricas”. O AgilityHealth, uma das plataformas líderes de métricas de agilidade e melhoria contínua, classifica as métricas chaves da seguinte forma:

   

Maturidade, à esquerda, é uma forma subjetiva e qualitativa para analisar a saúde de um time e encontrar oportunidades de melhoria. Portanto, podemos ter vieses nesta análise e esta não deve ser levada para fora do contexto do time. Ao meio, temos a performance medida por métricas quantitativas, que são indicadores de entrega. Quantas coisas entregamos, quanto tempo leva, etc. Aqui falamos de outputs, e como está a produção de itens de trabalho. Por fim, à direita, temos os resultados de negócio alcançados; os outcomes. Estes, de fato, refletem o objetivo final que visamos ao criar soluções e validar hipóteses.

Em outras palavras, maturidade é uma medida de saúde de como o time se enxerga; performance é quantas coisas produzimos e como está o nosso motor; resultados de negócio, são de fato o ponto ao norte queremos chegar.

 

Consideração 3:  Maturidade é uma análise subjetiva de como um time se vê 

 

Não é raro encontrar um time que se autoavalie muito bem. No entanto, analisando melhor a rotina e a forma de trabalho, percebemos que o alto score pode ser puramente causado pela ignorância em relação a maneiras melhores e mais efetivas de se trabalhar. Por este motivo, é recomendado ao time ter um apoio e acompanhamento de alguém com experiência para mentorá-los e retirar vieses.

Dadas as retratações e definição do propósito de maturidade, agora vamos falar da prática. “Como posso avaliar a maturidade em meus times, se não tenho nenhuma referência?” – Há duas formas: criar algo do zero ou usar uma ferramenta de mercado. Na tabela abaixo, criamos uma comparação dessas opções utilizando de referência duas das ferramentas mais conhecidas.

A forma mais percebida no mercado é a opção de um questionário in-house: um núcleo com pessoas que tenham conhecimento de agilidade constrói do zero um assessment com base em alguns conceitos pertinentes para times ágeis.

 

Consideração 4: Criar um modelo de maturidade não é trivial 

 

No entanto, é bastante complexo construir um bom questionário de maturidade que não receba tantas críticas, não tenha grandes vieses e que seja facilmente aplicável a times de diversos contextos. Discussões sobre a escala, a terminologia, a exigência ou não de um framework identificam continuamente melhorias e principalmente refatoração dos questionários. Portanto, é importante considerar que questões de qualidade levam bastante tempo para serem refinadas.

Outro aspecto importante a se considerar é a gestão dos artefatos. Uma solução caseira normalmente em Excel irá gerar diferentes versões para cada incremento do template e também para cada execução com os times. Fazer a gestão de tantos artefatos, ou mesmo fazer análises cross e analisar evoluções, pode ser trabalhoso. Quanto mais times, maior o esforço operacional.

A outra opção, menos utilizada (e mesmo desconhecida), é de utilizar uma ferramenta de mercado para apoiar a execução de questionários de maturidade. Na Accenture | SolutiosIQ, utilizamos a plataforma AgilityHealth, em que há cerca de 20 questionários para diferentes níveis, e o mais popular é o AgilityHealth Team Radar. Nele, as questões foram cuidadosamente elaboradas e as escalas refinadas por estatísticos para que as notas façam sentido e seja muito claro o objetivo de cada pergunta. A análise consolidada gera um radar, onde vemos as 5 grandes dimensões:

 


Esta é uma forma resumida de analisar fortalezas e pontos de melhoria provenientes de um questionário para todos os integrantes de um time. A ferramenta facilita a operacionalização do assessment, além também de facilitar análises cross dos times – como estão as dimensões de forma global, quais as competências que mais deveríamos dar atenção ou mesmo o nível de turnover dos times com base no histórico de respondentes.

Uma outra ferramenta que incluímos na análise é o Agile Fluency Model, criado e divulgado pela Diana Larson. É um modelo mais robusto e complexo, onde há etapas no ciclo de desenvolvimento de um time. Também é uma opção interessante para se considerar.  

 

Consideração 5: Uma análise de maturidade não tem sentido se não gerar planos de ação 

 

Na ansiedade de gerar um questionário de maturidade, há casos que o resultado demonstra visibilidade de como o time se vê e é enviesado um com plano de ação viciado. O time necessita de disciplina e apoio para que ações de melhoria sejam, de fato, elencadas e implementadas e esteja sempre numa crescente. No fim do dia, este é o objetivo – melhorar a dinâmica de time para potencializar os resultados gerados.

 

Consideração  6: Muita cautela ao comparar times, pois pode-se gerar competição

 

Este é possivelmente o tema mais polêmico sobre maturidade de times. O mau uso desta ferramenta pode debilitar seu valor, que é fomentar melhoria contínua. Num cenário e com uma cultura ideal de times colaborando entre si, divulgar os resultados e compará-los poderia ser um benchmarking interno, onde os times podem buscar outros para entender como executam práticas melhores. No entanto, na maioria das organizações em transição, a comparação cria um ambiente nocivo onde os times com avaliações mais baixas se sentem rebaixados e ficam em modo defensivo, procurando justificativas ou mesmo descredibilizam os times com as melhores avaliações. Portanto, recomendamos que ao identificar a menor evidencia deste comportamento, evite qualquer tipo de comparação para preservar a segurança psicológica dos times. Caso contrário, nas próximas medições tenderíamos a ter vieses por conta do instinto de sobrevivência das pessoas.

Este não é um guia definitivo sobre a maturidade de times, mas um resumo consolidado de nossas experiências em relação a este tema tão delicado. Se tiver dúvidas ou queira saber mais, fique à vontade para entrar em contato conosco.